Ainda ontem me passaram o sabão no sono do sexo. — A sede dos brutos é um improviso cruel: eles me mastigaram frito al dente.
Eu queria poder fugir nesse instante em que v. executa essa flauta transversal no meu ouvido.
Temo que amanhã eu acorde e v. tenha bordado as velas acessas no meu cachecol.
Temo que a última cena seja essa:
Primeiro v. dirá, A arquitetura do desespero e do medo, só o que teus olhos sabem decifrar. Teu coração bate o luto dos dias.
Depois prepara o café enquanto cola selos em postais de despedida, esse é para meu pai que, mesmo longe, ainda martela, em meus sonhos, a rigidez e a palmatória.
FIM.
Eu queria escrever esse poema de chuva para livrá-la de todo cansaço inútil, eu que te acho mais bonita que a lenda do boto e de quem escuto, todos os dias, que temos que aprender a lapidar aquilo que em nós é o divino espírito santo de uma varanda com pomar de conchas na areia de uma cidade que não tem mar.
...
No meu sonho um pianista executa um solo mudo.
Na primeira vez em que ela choveu por aqui — o céu emanava do rádio cansado da tarde —, toda água, com sua saia, suas coxas, fui lojinha da esquina comprar doce. O dia morreu nela.
Na segunda em que ela aqui apareceu, toda suja de de mim, eu bebia um copo de suco com meu querido gato.
À terceira vez ela entrou no mar. À noite sonhei com generais que ardiam na fogueira.
E disse...
Bebam desse mar gelado o sal que ele, o mar gelado, é, nada mais, nada menos, que a vossa própria sede.
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