Não sei porque o desdém após tão longa e desastrosa convivência. Mentira, sabemos. Revivi coisas vividas, vidas não vividas, vi e ouvi de dentro e de fora, plantei venturas, colhi agruras. Tive lampejos, revelei desejos, ousei horizontes e aproei nortes, enfrentei noites e arrisquei sortes.
Foram dias, meses e anos, lhe sorvi, embebi e pari. Me arrisquei, dei luz a eu mesmo, eu meu próprio filho com o dedo no gatilho, sorvendo o meu próprio cordão umbilical enrolado em meu pescoço, sem coração desabo esfrego o erro na cara, bebe teu chá de mágoa com sabor de certezas, enquanto fumo o meu cigarro acendendo com o fogo da tua razão, eu levanto, respiro chocolates, me abraço em flores, cuido e abandono.
Fim...
Tudo bem se enganar, segue...
A incerteza é meu prato preferido, o mais caro do cardápio, nunca tenho como pagar, de verdades sei pouco, nada, quase nada.
Certeza... O que é isso?
Na cama, me fez homem e mulher, feliz e infeliz; sofri e gozei, ri e chorei.
Tornei você cúmplice e parceira, fugi, companhia diuturna, taciturna, risonha ou soturna; presença forte que sacudia, invadia, motivava e empurrava. Íamos do fundo do poço ao alto astral, do átomo ao espaço sideral, do temor à ternura, do ódio à doçura, da paz de espírito a loucura mais funda, agora é razo, tudo razo...
Incrível, nossaaaa...
Que incrível!
Nos perdemos em miragens, selvas e rincões, levados por sonhos, céu e trevas. Criamos gatos, lebres e pinguins, fantasias, novelas, filmes e afins. Entrelaçamos mãos em bares e cinemas, apreciamos artes, concertos e recitais, recitamos poemas, reciclamos receitas, engendramos paixões, desfiamos temas e quebramos padrões.
Não sei porque você não volta, tento de tudo, mil estratagemas, catilinárias e simpatias, terços, mandalas e adereços. Ecoam meus gritos e lamentos tantos, mas de você só recebo brancos.
A folha cega, escrevo com caneta sem tinta um querer desavisado.
Desvairado...
Amor tranquilo é raso, nossa que sorte tão incrível essa sorte vazia tão, cheia de raso, seca e sem graça, prefiro o molhar, o molhado, bem molhado, a saliva, profundidade.
Querosene, granada, bomba de gás lacrimogêneo, encher de gasolina o coquetel molotov e atirar dentro de mim, queimar, incendiar de molhar.
Volta e vamos, de novo, um novo, folha em branco, fazer das palavras uma horta de hortaliças, um jardim de flores, o nosso brinquedo. Volta, Inspiração, volta sem medo, vou te contar um segredo...
Eu não tenho medo.
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